sábado, abril 29, 2017

Não há Fome que não dê em Fartura

Não sei se o provérbio está correto, mas tenho que assumir que isto está mesmo ao rubro. Depois das mudanças que assistimos no mundo editorial, com a morte de uma revista e posterior ressurreição sobre o nome de outra, a criação de uma outra, somos confrontados com os eventos. A uma distância considerável, os dois players concorrentes começam a posicionar-se para os encontros que irão realizar. E ambos serão, consta-se, os maiores eventos de vinho, alguma vez realizados. Os locais escolhidos até parecem ter uma mensagem implícita. Ora reparem: A antiga Revista de Vinhos que era para Apreciadores Exigentes e que agora é A Essência do Vinho continua com o Encontro com Vinhos/Encontro com Sabores na antiga FIL. A nova Revista de Vinhos que se chama Vinho - Grandes Escolhas vai para a nova FIL. Tudo isto não deixa de ser simbólico, não acham?


Ambos projectos prometem oferecer-nos The Next Big Thing. Tenho curiosidade, a sério, para saber como é que as falanges se irão colocar no terreno. Para os produtores será complicado tomar uma posição. Irão optar por um em detrimento de outro ou irão aos dois ou não irão a nenhum? Tenho que assumir que decisão não será fácil para eles. Os custos, presumo, não serão poucos. Para nós, vulgares mortais, creio que também não será fácil optar. Mas acho que, no final, a malta irá acabar por ir a tudo, para ficar bem com todos. É o início.


Se no lançamento dos números uns das novas revistas, a Wine, desculpem a Revista de Vinhos - A Essência de Vinho, foi a primeira a sair da recta da meta, com resultados que são, na minha opinião, medíocres, para ser simpático, a Vinho - Grandes Escolhas coloca-se em posição de destaque na organização do primeiro grande evento do ano, na capital do império, com o nome Vinhos e Sabores. Perante tudo isto, há que dizer que não há fome que não dê em fartura. No que me diz respeito, partilho com vocês, fiquei com vontade de dar uma olhadela nos dois Encontros com o Vinho, só para ver as vistas. Haja permissão superior.

sexta-feira, abril 28, 2017

Quinta da Lomba

Conheço a Quinta da Lomba desde que me conheço como gente. Desde que comecei a andar. Desde que soletrei os primeiros articulados verbais. Este espaço faz parte do meu imaginário. A quinta fazia e faz paredes meias com propriedades familiares e foram bastas as vezes que por lá andei a fazer poeira, a sacar uns bagos de uvas para comer no pico da tarde. Tropelias de rufias. 


Assisti à decadência, à formação das ruínas, até cair no abandono. Ainda assim, as suas uvas, em 2008, deram origem a um dos melhores vinhos brancos do Dão. Um vinho feito pela mão de João Tavares de Pina.


Agora faz parte do universo Niepoort. E desde a sua aquisição pelo actual proprietário que está a ser feito um trabalho de recuperação dos edifícios, das vinhas, dos muros, de todo o património que a quinta possui. Numa linha minimalista, sem grandes arrojos arquitectónicos, sem grandes modernices. E ainda bem. Consegue-se, assim, sentir aquele lado mais rupestre, mais bucólico e despojado da Serra. Existe coerência, respeito, enquadramento. E é com satisfação que observo a sua reedificação, o seu reaproveitamento. Num território que morre aceleradamente, qualquer investimento, seja ele qual for, é de registar.


Sobre as amostras de vinho que provei, mas em bruto, vindas das cubas de inox, dos tonéis, das barricas que são usadas, dos antigos lagares de cimento, ficou a ideia que temos aqui um conjunto de projectos que vão de encontro ao que Dirk pensa sobre o vinho, em que a elegância e a frescura parecem ser a linha mestra. Com muitas semelhanças, perdoem-me os entendidos na matéria, ao que é feito na vizinha Quinta de Baixo. Sendo, naturalmente, o desígnio mais recente de Dirk, iremos assistir com toda a naturalidade a afinações, a novas ideias, a novos vinhos (aquele Vinhas Velhas e Alfrocheiro). Mas o que importava mais, naquele momento, era calcorrear novamente cantos e recantos de um lugar que conheci muito bem. Digamos que é um lugar da História. Da minha.

quarta-feira, abril 26, 2017

Trivialidades de um gajo

Não sei se acontece convosco, mas existem vinhos e determinadas combinações gastronómicas que só fazem sentido se estivermos no local apropriado. No lugar deles. Costumava dizer que estávamos perante vinhos e comidas étnicas, tribais.


Fazem sentido, têm coerência, por alguma razão, apenas num determinado lugar. No seu lugar. E enquadrados pelo cenário certo, adquirem uma dimensão impossível de ser copiada noutros espaços. Roçam quase o superlativo, mesmo sabendo que não são mais do que trivialidades de um povo. E minhas.


Já fiz a tentativa de reproduzir os mesmos momentos, as mesmas situações noutros locais e tenho que assumir que o prazer não é comparável. Nada sabe igual. Fica-se descontextualizado, faltam outros adereços, como os cheiros, as vistas, as pessoas. Cai sobre nós um certo vazio, provavelmente causado pela impossibilidade de não estar lá, no lugar certo.

terça-feira, abril 25, 2017

Since 24 de Abril de 2006

A liberdade permite-nos dizer tudo ou nada. A liberdade permite-nos dizer o que nos vai na alma, correr riscos, gritar, vociferar, chorar, rir, brincar. Largar as inúmeras angústias, festejar as poucas alegrias. É pura terapia, um escape, uma bola anti-stress. A liberdade permite-nos ser independente no meio das nossas profundas dependências. Permite-nos dizer que somos influenciados, que temos amigos, que somos parciais, que não seguimos em fila indiana. Permite-nos achar isto ou aquilo sobre tudo e mais alguma coisa. 


A liberdade permite-nos afirmar que não se quer estar aí ou ali, que se quer estar aqui ou acolá, que se quer ir por outro caminho. Permite-nos pensar sobre tudo ou sobre nada, mesmo que no final se esteja errado. A liberdade permite-nos extremar ideias, mandar bocas, mesmo sabendo que mais tarde irá aparecer uma qualquer factura para ser cobrada. Mas que se lixe, depois logo se vê. E com isto só faltam mais 11 anos. Passa rápido.

sexta-feira, abril 21, 2017

Dizem que gostam de vinhos finos mas ...

Por entre os diversos episódios relatados por Dirk Niepoort na Revista de Vinhos - A Essência do Vinho, e que são conhecidos, saltou à vista uma passagem (que ninguém pegou), sobre a eventual mudança de perfil dos vinhos do Douro, no particular, mas que podemos extrapolar para outras regiões e que transcrevo. "(...)Tal como o Priorat, o Douro estava a seguir um caminho errado, com vinhos muito pesados e extraídos, a prometer ao mundo que iam envelhecer. Dez anos depois começamos a ver que não é assim, que talvez fosse melhor vinhos mais finos, mais precisos, menos alcoólicos, com mais acidez e menos madeira. Vejam o Alvaro Palacios. Fazia vinhos monumentais, que nunca gostei muito. Mudou o perfil e agora está a fazer vinhos fantásticos. Mas teve a coragem de mudar! O mundo está a mudar. Hoje, um grande vinho tem que ser um vinho equilibrado, fino, que envelheça bem."

Imagem retirada da RV - A Essência do Vinho
Depois Dirk sobre o assunto avança com a seguinte tirada, por causa de alguma incompreensão que sente em relação aos seus vinhos (dedução minha): "(...) Acho que os jornalistas estão muito enganados. Vão muito pelo grande vinho, não tanto pelo que dá gozo beber. Dizem que gostam de vinhos finos mas atribuem as pontuações mais elevadas aos vinhos pesados e alcoólicos. Há uma fantochada muito grande. Mas é o que é, é normal." Para quem serão os barretes?

Imagem retirada da RV - A Essência do Vinho
Tendo a crer, sem ter os dados todos, que o autor poderá ter uma certa razão. Na verdade, existe uma enorme distância entre o que são as novas correntes, o que se pede, o que se deseja aparentemente e aquilo que acontece efectivamente na realidade. Por vezes, acho, que no final das contas, os vinhos que continuam a dar mais nas vistas são aqueles que usam da força e da exuberância para nos chamar a atenção. Vinhos que foram feitos para correr a alta velocidade em pequenas distâncias. Não mais que isso.

quarta-feira, abril 19, 2017

Quinta de Camarate: Branco Seco

Será provavelmente o vinho branco da PS (Península de Setúbal) que consumo mais vezes. É eventualmente um dos vinhos brancos da região com maior registo de colheitas feitas, fora daquela gama mais comercial, onde pontificam, por exemplo, nomes como João Pires, BSE, Lancers, Catarina (...) e que eram aquelas escolhas óbvias de quem ia a um restaurante ou para uma pândega entre comparsas. E assim de repente, veio-me à lembrança, agora mesmo, o Cova da Ursa. Vinhos incontornáveis, pelas mais diversas razões, na PS. No universo das opções, das tendências pessoais, inclinei-me sempre para o Camarate. Uma questão de gosto, naturalmente.


Será escusado dizer que é dos vinhos que mais gosto da região. Consistente e que parece aguentar a passagem dos anos, de forma digna. Este 2013 mostrou-se adulto, com aromas complexos e cheio de frescura, melhorando, vejam lá, nos dias seguintes.


Resumindo a coluna de hoje, digamos que é um dos portos que escolho para ancorar com segurança. Basicamente um lugar comum para mim e para outros tantos. E isso basta-me.

segunda-feira, abril 17, 2017

Foram com muita sede ao Pote?

E prontos, saiu a primeira edição da Revista de Vinhos - A Essência do Vinho e uma coisa saltou logo à vista na capa, para além do material de que é feita: deixou de ter o subtítulo Para Apreciadores Exigentes. Sendo a primeira publicação com outra equipa é quase impossível avalizar de forma sustentada o novo projecto, as suas ideias e opções que irão ser tomadas no futuro. Contudo, a sensação que tive ao passar os olhos pela revista é que há um longo percurso a fazer e eventualmente muitos ajustes para concretizar. Ainda assim, avanço com algumas considerações.
Para esta edição devia ter havido, acho eu, muito mais cuidado na escolha dos temas para os artigos de opinião e reportagens, o que cimenta a minha convicção, muito pessoal, de que alguns dos conteúdos publicados agora, já estariam feitos e preparados para serem lançados na extinta Wine. Estava à espera de bem mais. Ok, uma reportagem com Dirk Niepoort é sempre um trunfo, mas só isto? E a Jancis? Podia ter sido desafiada a escrever sobre outra coisa bem mais significativa. Parece-me um autêntico desperdício de recursos. Basicamente, procurei por conteúdos e não os encontrei. Esqueceram-se que a primeira impressão conta muito?



Fiquei com a profunda crença que a nova equipa editorial trabalhou este número, sem rever o que já tinha sido publicado na RV no passado, pois só assim se justifica que surja outra vez uma reportagem sobre a Bacalhôa. Seria mais um artigo que já estava preparado para sair na Wine? Quase apetece extrapolar para outras situações: será que alguns vinhos provados e classificados para este número, já o tinham sido para a Wine ou para a RV? Terá havido revisão de artigos, reportagens e notas de prova já publicados? Terá havido reflexão sobre eventuais confusões que possam surgir no leitor e no produtor? Ficam as minhas dúvidas.


Os selos de garantia, tipo Boa Compra, mantêm-se, sendo que agora temos um ?novo? que é o Altamente Recomendado que provavelmente terá migrado da Wine. As selecções Para a Mesa e Para a Cave também se mantiveram, bem como as escolhas pessoais de cada provador. Mudou apenas o grafismo que pessoalmente não me agradou. Uma questão de gosto. 
No que respeita a propostas de enoturismo, a recauchutada Wine ou RV, não sei como as adjectivar, não publica qualquer referência. Opção editorial? Mantém as colunas sobre restaurantes e respectiva classificação por itens. Creio que é outra migração da Wine, salvo erro. Reparei que temos páginas com receitas de culinária o que achei, no mínimo, curioso. 


Bom, resumindo e baralhando e descontando o facto de estarmos perante algo novo com nome já antigo, tenho que partilhar que estava à espera de mais. Muito mais. No essencial o que vi foram flashes da revista Wine (que não compro há muito tempo), com o aproveitamento de alguns gadgets da RV, o que é manifestamente muito pouco para quem ambiciona ser um projecto de referência. Para já, diria que a revista Wine foi apenas forrada com a capa da RV. E como tal não basta. 
Sem saber como vai ser a primeira edição Vinho - Grandes Escolhas, apetece-me dizer que o arranque da RV - A Essência do Vinho foi muito titubeante, confuso e que não nos deixa perceber qual será o seu verdadeiro foco. Ouço falar no mundo Lusófono. 
Parece-me que deram 45 minutos de avanço aos seus concorrentes, o que lhes pode sair bem caro. É caso para dizer que foram com muita sede ao pote. Aguardemos, pois então, pelas cenas dos próximos capítulos. E eu que já não comprava uma revista de vinho há uma porrada de tempo? Sim senhor...

sábado, abril 15, 2017

No Conforto da Tribo...

São momentos de profundo equilíbrio emocional, de grande satisfação. Estar junto da tribo, protegido por ela, rodeado de múltiplos motivos que reportam a memórias, catapulta-me para um estado de felicidade que quase pensamos não existir. Assumidamente não sou bicho da cidade. Não curto o rebuliço, o barulho da grande urbe, as passarelas da vaidade. Está-se literalmente longe da vista e do longe do coração. Não se quer saber. Os problemas, sejam eles quais forem, surgem muito menos prementes, quase que não queremos saber deles. Que se lixem!


Na terra da tribo conseguimos recordar a simplicidade das coisas, aquilo que, em tempos, comemos e bebemos. As lembranças das pessoas que se levantaram da mesa, sem ordem, são muito menos doridas. É-se muito mais prosaico, muito mais despojado de artefactos, mas muito mais feliz. 


A porra disto tudo, é que o tempo não volta para trás, não se pode reescrever novamente a história, não se consegue obrigar o tempo a parar. O gajo não ouve e parece que corre cada vez mais veloz.

sábado, abril 08, 2017

Planeta: Dedicado a um ...

Tenho que assumir uma coisa perante todos vós. Tiro o chapéu a quem teve a brilhante ideia de criar o conceito de vinho de ou do amigalhaço. Penitencio-me, antes de tudo, por não ter tido a capacidade e a desenvoltura intelectual para me lembrar de tal coisa. Imperdoável da minha parte esta falha.

Gostei francamente do vinho. Iodado, com uma palete de aromas algo diferente ao que estamos habituados. Num bom estado de finura e complexidade. Impressionante a acidez.
E como gosto de aproveitar as boas ideias, nada melhor que dedicar este post a um amigalhaço que, segundo a peta que me enfiou, levou uma garrafa de vinho para eu beber. Assumo que andei durante muito tempo a chorar ao pé dele, dando-lhe a ideia que gostava de o beber. Do tipo ai e tal que nunca bebi nada disso.


Na verdade e mantendo a linha coerente deste tablóide, este post não tem qualquer utilidade, não serve para coisa alguma. Serve apenas para agradecer ao tipo que tinha a garrafa guardada e a levou para uma tainada. Por isso, obrigado, pá!

quinta-feira, abril 06, 2017

Júlio Bastos: A Impossibilidade de ficar indiferente!

Independentemente do que pensamos gostar ou não gostar, existem vinhos que não nos deixam ficar indiferentes. Bloqueiam qualquer vontade de pensarmos ou dizermos esperem aí que não é bem assim. São vinhos que apelido de superlativos. São literalmente vinhos que possuem uma dimensão ímpar. Grandes na estatura e dimensão e em que um gajo fica literalmente impressionado. Ouch!



Resumindo, para não enfastiar os mais sensíveis (que pelos vistos são muitos), a verdade nua e crua é que gostei pra caramba deste vinho. Foi impossível ficar apático, mesmo que em tese (seja ela qual for), não tivesse à espera de tamanha reacção. A minha. Que grande vinho.

quarta-feira, abril 05, 2017

Adegga e Vinho - Grandes Escolhas: Juntos no Digital?

Devo dizer que fiquei sem palavras quando abri o FB e vejo escarrapachado preto no branco (espero não ter lido mal) que Adegga irá colaborar com a equipa que liderava a Revista de Vinhos até há pouco tempo. Devo dizer-vos que esfreguei bem os olhos. Vão colaborar, segundo parece, com Vinho - Grandes Escolhas, na área do digital. Parece que o entusiasmo é grande de parte a parte. Pessoalmente não sei o que dizer, o que comentar, o que pensar. Não arrisco ir mais além, pois o risco de ser mal interpretado é enorme. Estou literalmente admirado.


No entanto, é caso para pensar que tudo afinal pode ser mesmo possível. Era só mesmo isto que tinha para dizer. Aguardemos, pois então, pelas diversas novidades. 

segunda-feira, abril 03, 2017

Dizem maravilhas!

Pelo que tenho visto e ouvisto é uma das últimas maravilhas do mundo do vinho português. Assim qualquer coisa ao nível da pedrada no charco. Anda meio mundo louco e provavelmente com toda a razão. Para já, só quero dizer que fiquei assim, como dizer, meio desiludido, pouco convencido. À espera de um pouco mais. De mais qualquer coisa, não sei bem o quê. Basicamente, fiquei sem saber o que dizer dele. Cheira-me que foi inaptidão pessoal.



Pelo que sei este vinho é um entrada de gama (+10€) e como tal  não vou fazer extrapolações, sobre o resto da prol. Tive, portanto, acesso a uma mera nota introdutória. Vou esperar, por isso, por novas oportunidades. Se mudar de ideias, volto cá para fazer mea culpa, como fiz noutras ocasiões, sem qualquer problema. E era só isto.